19/07/2019

Filipe Anacoreta Correia: “CDS sai do congresso mais fechado”

Publicado a: 20. Jan, 2014 em Noticias e Recortes, Notícias

Filipe Anacoreta Correia: “CDS sai do congresso mais fechado”

Crítico da liderança de Portas diz que há muito eleitorado do CDS “insatisfeito” com o partido

Paulo Portas disse que “o que tem de ser teve muita força”. Ficou esclarecido quanto às razões que levaram ao pedido de demissão?

Não. Há um aspecto que ficou a faltar, não houve um reconhecimento de que houve uma fraqueza, um erro, nem um pedido de desculpas. E isso sugere ao eleitorado que se tratou de uma jogada para afirmação política de poder. Isso é negativo e é mal percepcionado pelo eleitorado.

Devia ter sido mais concreto nas explicações?

Tinha de haver o reconhecimento de que aquilo não foi uma força, foi uma fraqueza. O que foi determinante na condução dessa crise foi a atitude de responsabilidade, quer pelo partido, quer pelo parceiro de coligação. Tiveram uma atitude patriótica e não deixaram que a queda se precipitasse. Mas não vale a pena alimentar mais essa telenovela.

O CDS tem dito que foi graças a esse pedido de demissão que a identidade do governo mudou e a economia ganhou peso.

O CDS dizia que antes o parceiro de coligação não estava a ser suficientemente eficaz ao nível da reforma do Estado. Agora, o CDS diz que não consegue fazer as reformas do Estado com a troika e que vai fazê-las depois. Antes, dizia que havia uma política económica errada. Hoje, reclama para si os méritos dessa política e diz que afinal estava certa. Antes, dizia-se que havia pouca concertação e capacidade de diálogo com outras instituições. Hoje, não se vê que haja maior capacidade de concertação.

O que é que isso significa?

O CDS não conseguiu mostrar que aquilo que criticava tinha alternativas, e isso foi por nós demonstrado.

O CDS está completamente sujeito à condução das políticas por parte do PSD?

O CDS firmou caminho afirmando-se contra uma série de questões, mas, confrontando-se com a impossibilidade de implementá-las, verifica que não tem grande capacidade de alternativa.

Essa não é a sina do parceiro mais frágil da coligação?

O papel natural e desejável é mostrar que tem uma identidade própria, consubstanciada em propostas concretas. Agora, estar com um pé dentro e outro fora, dizer uma coisa que depois não é capaz de cumprir, isso revela um distanciamento em relação à realidade que não foi bom para a estabilidade política. Saúdo o maior compromisso que o CDS neste momento tem com as políticas do governo, mas esperava capacidade de afirmação de alternativas de acordo com as expectativas que criou. Agora tem a possibilidade de se comprometer com medidas concretas e não com promessas vãs para o futuro.

Apesar desse defraudar de expectativas de que fala, Portas teve uma votação expressiva no congresso. O partido continua fiel a este líder?

Não teve uma votação tão expressiva como outros líderes no governo têm habitualmente, noutros partidos. É uma votação, do ponto de vista da nossa moção, suficientemente modesta para não trazer alarme nem instabilidade ao governo, que não pretendíamos. E um sinal suficientemente forte para sinalizar o futuro. José Sócrates, no último congresso, teve uma votação muito mais expressiva que o dr. Paulo Portas.

Já não existe o partido de “um homem só”? Há CDS além de Paulo Portas?

A nossa candidatura queria sinalizar isso. Houve um desafio à liderança para acolher as nossas propostas, comprometer–se com medidas concretas. Medidas para a reforma do sistema político, reforma do Estado, diminuição dos municípios, extinção de organismos públicos que servem clientelas partidárias. Queríamos que Paulo Portas acolhesse isso para mostrar que sabe somar dentro do partido, para multiplicar no país.

Esse acolhimento não se verificou.

A nossa candidatura sinalizou que nem todo o partido se revê numa série de omissões do CDS, de desistência em relação a grandes reformas de que o país precisa.

Não acha que alguns esperariam de si que levasse a candidatura até às últimas consequências?

Eu levei a candidatura até ao fim. Há aí um equívoco que creio ser de âmbito jornalístico. Na história dos congressos, as candidaturas protagonizam-se com a votação das moções. Nunca aconteceu uma moção derrotada apresentar listas aos órgãos executivos. Não faz sentido.

Falou-se da sucessão de Portas na liderança do CDS como não tinha acontecido até agora. Este encontro marcou o início de um novo momento na vida do partido?

Os sinais que chegam da parte do dr. Paulo Portas são negativos. Gostava de dizer o contrário, mas há vários sinais negativos. Antes de ir para o governo, Paulo Portas tinha defendido uma alteração dos estatutos onde sustentava que o partido tinha de ter vida própria. E o que sai do congresso é uma importação para o partido de todos os membros do governo.

Mesmo reforçando a Comissão Política?

Não há um reforço, na medida em que ele é feito com pessoas que vêm do governo. Quem disse que era preciso um partido forte, autónomo, desistiu disso e acabou por importar para o partido o peso do governo. E isso não é um bom sinal.

Outra mudança de relevo foi a entrada de Telmo Correia para o lugar de Pires de Lima.

Tínhamos no Conselho Nacional uma pessoa com vida própria, o dr. Pires de Lima. Um gestor prestigiado, com vida muito além do partido, com uma visão aberta do CDS e o Conselho Nacional. E Paulo Portas acaba por restringir a escolha ao dr. Telmo Correia, que tem um perfil contrário a esse. O partido entrou no congresso à dimensão do dr. Pires de Lima e saiu à dimensão do dr. Telmo Correia.

O que quer isso dizer?

Saiu um partido mais pequeno, mais fechado, mais preso a um tipo de lealdade no mau sentido. A imagem que fica é de uma liderança que se agarra aos seus e não de uma liderança aberta, com espaço para respirar para fora. É a imagem de alguém que tem mais medo do futuro do que confiança.

Medo das eleições europeias?

O CDS acaba por contornar essa questão assumindo uma candidatura com o PSD.

Que vai ser mais prejudicial que a corrida isolada?

Defendi que o CDS devia ter uma candidatura autónoma às eleições europeias. Um dia, depois do congresso, vemos o dr. Telmo Correia reconhecer que isto foi o preço da crise de Julho. Disse-o um dia depois do congresso, mas não tiveram coragem de o afirmar ao congresso. Aquilo já estava decidido, não havia discussão.

O CDS não gosta de vozes dissonantes?

Os partidos tendem sempre a não valorizar muito quem tem vozes discordantes. E tendem mesmo a difundir uma imagem de que quem está a discordar está a fazer mal ao partido. Não tenho essa leitura. Um partido vive, também, de quem está insatisfeito. Há muito eleitorado que gosta do CDS e estima o partido, mas está insatisfeito, não se reconhece em muitos aspectos da sua actuação política.

O CDS precisa de uma renovação de liderança?

Acabámos de sair de um congresso que elegeu um presidente, e eu, como institucionalista, respeito essa liderança. É uma questão resolvida e Paulo Portas deve ser presidente no próximo ciclo eleitoral. Mas é importante que hajam mais pessoas a contribuir e que o dr. Paulo Portas não detenha o monopólio da acção política. Nesse sentido, o congresso marca o início da sucessão. Até agora, a maneira de o dr. Paulo Portas liderar foi muito centrada no exclusivo da sua condução política e sem grande margem de manobra para quem o acompanha. O sobressalto de Julho trouxe à consciência do partido a noção de que não podíamos continuar com o modelo anterior. O sinal que nos chega do dr. Paulo Portas é que ele ainda não compreendeu bem esta questão.

Portas cumprirá os dois anos de mandato?

Fala-se na possibilidade de ir para a Comissão Europeia.

Falou-se também na Presidência da República. Dá crédito a algumas dessas possibilidades?

Não. São questões faladas para ocultar outras. O próximo ciclo eleitoral – legislativas e presidenciais – deve ser precedido da possibilidade de o congresso reunir e pronunciar-se. O dr. Paulo Portas mostrou abertura para isso, mas não se comprometeu, e é essa a minha expectativa. Pode legitimar o próximo ciclo eleitoral através de um congresso ou através de um referendo a um acordo de coligação pré-eleitoral que possa haver.

Para as legislativas?

Sim.

Dependendo de como correr a legislatura até esse momento?

Exacto. O que defendemos é que qualquer coligação deve ser antecedida de um projecto de governo.

Porque é que não acredita numa candidatura europeia ou a Belém de Portas?

A Presidência da República é um fait divers, está muito longe e não tem relevância. Espero que sejam infundadas as notícias para comissário europeu. A expectativa que se tem é que Paulo Portas cumpra o seu mandato até ao fim. É muito importante que não desista.

Foi isso que aconteceu no Verão passado?

Por vezes sente-se a falta de entusiasmo que reconhecemos ao dr. Paulo Portas no início da sua vida política. Portugal encontra-se na situação em que se encontra por responsabilidade do PS e cabe-nos a nós, de direita, impedir que possa voltar ao governo. Estou convencido de que António José Seguro seria pior para o país.

A esta distância das eleições, acredita que o eleitorado pode voltar a escolher a direita para o governo?

Tenho de acreditar firmemente nisso. Não é só a minha convicção mas também o meu empenho. É essa a missão do CDS. Em nome do país, não nos podemos deter em questões internas e esquecer que o mais grave seria retroceder a uma política que nos colocou onde estamos hoje.

Em que áreas este governo não actuou e devia ter actuado?

São muitas. Por exemplo, ao nível da reorganização territorial do Estado. Fusão de municípios de forma substancial. Mas essa redução não pode cair no reforço do centralismo. A redução de estruturas tem de ser acompanhada de um reforço dos poderes das estruturas locais. É isso que se espera do CDS. Tendo um peso autárquico bastante inferior ao do PSD, o CDS estaria mais livre para encetar esse caminho.

E que outras áreas?

Os organismos públicos. As comissões de coordenação de desenvolvimento regional foram instrumentos fantásticos para o desenvolvimento regional. Mas estão reduzidas a instâncias de clientelas partidárias. Se é para isso, mais vale que não sejam.

São essa clientelas que os partidos não combatem que trazem descrédito à política?

É essa a nossa voz de inconformismo no CDS. O projecto do CDS tem uma base sociológica muito parecida com o PSD. Mas o perfil de alguém que se filia no CDS, quando não é por interesses, é por ideias, por inconformismo e distanciamento em relação ao centrão. Não me conformo com a possibilidade de o CDS se ter transformado nisso. Daí as nossas propostas de reforma do sistema político, por exemplo reduzindo o número de deputados. É possível reduzir os deputados e reforçar a proporcionalidade. E que a votos em branco possam corresponder cadeiras vazias na Assembleia da República.

Não há um único partido disponível para aplicar essas alterações.

Há pessoas no CDS disponíveis para isso.

Pessoas que não estão na liderança do CDS.

Estou convencido que o eleitorado quer isto.

Os partidos não estão a seguir a vontade de quem os elegeu?

Vão corresponder. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

Fonte:
Jornal i

Entrevista de Pedro Rainho

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