25/07/2017

Espelho meu… diz-me quem fez mais cortes do que eu!

Publicado a: 24. Nov, 2011 em Opinião

Espelho meu… diz-me quem fez mais cortes do que eu!

Apesar de bastante comum, o mais perigoso defeito dum político é a egolatria. É o que acontece com Mário Soares. Apesar dele por estes dias  gozar dum estatuto de quase inimputabilidade, é difícil atender ao seu “manifesto”, um arrazoado de moralismo oportunista cujo objectivo, para além de embaraçar a direcção do seu partido, não é mais do que boicotar a recuperação nacional, chamando a si as luzes da ribalta. Para aqueles que por qualquer razão não têm memória, convém relembrar que, quando entre 1983 e 1985 Soares liderou o chamado Governo do Bloco Central, Portugal estava à beira de uma ruptura financeira, o que implicou uma forte intervenção do FMI. Para fazermos uma ideia, inflação chegou a rondar os 30%, com uma recessão na ordem dos -1,5% em 1984. As medidas tomadas pelo governo penalizaram largos sectores da população, provocando uma grande agitação política. A incidência de uma taxa de inflação acima dos 25% durante três anos em que os aumentos médios salariais não chegavam aos 10%, funcionando como um imposto encapotado sobre o consumo, resultou então um corte significativamente mais dramático nos rendimentos da população do que o verificado nas actuais circunstâncias.

E a verdade é que apesar dos elogios do FMI a Mário Soares,  então, as reformas na administração pública foram adiadas para as calendas e as estruturas e corporações herdadas do antigo regime continuaram intactas, absorvendo os parcos recursos económicos. Nessa época, quando os mecanismos de protecção social eram bem mais insipientes do que os de hoje, tivemos em Portugal uma autêntica onda de pobreza e indignação generalizada, com o país devidamente “incentivado” a protestar na rua, já para não falar dum significativo aumento da emigração, sobretudo para a Suíça.
Se o mais perigoso defeito na política é a egolatria, o mais perigoso defeito dum povo é a falta de memória. Mário Soares, uma vez mais, perdeu uma oportunidade de estar calado.

João Távora

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